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ARTIGOS DE OPINIÃO - 2008 - AGOSTO
Começar a Construir a Casa Pelo Telhado - Parte II
Por Tito de Morais

Após escrever a primeira parte deste artigo, tomei conhecimento do lançamento do Magalhães, o computador portátil com ligação opcional à Internet que irá ser oferecido e/ou vendido a baixo custo a 500.000 crianças portuguesas do primeiro ciclo de ensino. Mais do que nunca, achei importante e relevante escrever este artigo.

Assim como no artigo anterior achei positiva a iniciativa tomada pelo Parlamento Português em Julho relativamente à recomendação ao Governo sobre a criação de "uma campanha de prevenção dos riscos da Internet para as crianças", acho igualmente positiva esta iniciativa que visa dotar os 500.000 alunos do primeiro ciclo de ensino com um computador portátil. Esta iniciativa, assim como o programa e-escola que abrange já o 3º ciclo e o secundário - e de que o 2º ciclo fica até agora inexplicavelmente excluído - são meritórias, mas desenganem-se aqueles que consideram que os computadores na sala de aula vão mudar a educação. A quem assim ainda pensar, recomendo a leitura do ensaio "At School, Technology Starts to Turn a Corner", publicado recentemente no New York Times. Neste ensaio, uma citação de Bob Pearlman, director de planeamento estratégico da New Technology Foundation, chamou-me a atenção: "A menos que se mude a forma como ensinamos e como os miúdos funcionam, as novas tecnologias não vão realmente fazer a diferença". Esta ideia é excelentemente ilustrada pelo vídeo abaixo intitulado "Tecnologia e Metodologia" (obrigado à Prof. Teresa Pombo pela referência).

E isto leva-me ao tema que desejo abordar hoje, as pessoas.

As Pessoas: Professores, Pais e Alunos
No que diz respeito à educação, estes são os públicos-alvo, mas convirá também não esquecer os responsáveis pelas bibliotecas escolares, os auxiliares de acção educativa, entre outros. Estes são, como referi na primeira parte deste artigo, o segundo componente mais importante da segurança. E cuja formação é de primordial importância. É necessário um plano de acção ao nível da formação. A começar pela formação de formadores, continuando pelos professores e não esquecendo os restantes. E para tudo isto são necessários conteúdos. E cada público-alvo dos que acima referi, tem necessidades específicas, necessitando por isso de conteúdos específicos. Os conteúdos para os formadores de formadores não podem ser os mesmos para os professores. E os destes também não podem ser os mesmos para os pais ou para os responsáveis pelas bibliotecas, etc. E para os alunos idem aspas. Para alunos e professores os conteúdos têm de ser adaptados em função dos respectivos anos de escolaridade ou, no mínimo, em função do seu ciclo de ensino. E a tarefa implica não só novos processos e metodologias e a respectiva integração curricular. A segurança das crianças e jovens a quem são disponibilizados estes recursos é algo demasiado importante para se deixar ao improviso ou a programas de adesão voluntária. Como afirmou Craig Barrett, CEO da Intel, aquando da sua visita a Portugal por ocasião do lançamento do Magalhães, não basta dar PC's ou conectividade às escolas. É também necessário formar e certificar os professores e desenvolver conteúdos. É que, como as afirmações anteriores e o vídeo demonstram, por si só, os computadores pouco ou nada vão mudar na educação.

Sobrevalorizando as tecnologias e não dando a devida importância às pessoas, corremos o risco de estarmos a dar um valente tiro no pé. Sem o devido enquadramento, e recordo que o programa e-escolas já vai no seu segundo ano, corremos o risco de estarmos a dotar os alunos com aquilo a que, com base no estudo The Effect of Computer Use on Child Outcomes (PDF - 495 KB) da autoria de dois investigadores americanos, Ray Fisman chamou "The $100 Distraction Device", explicando no seu artigo na Slate, porque oferecer portáteis a crianças desfavorecidas pode não resultar na melhoria da sua performance escolar.

O esforço no sentido de incentivar a adopção das tecnologias na educação é a todos os níveis louvável, mas é preocupante que tal não se faça acompanhado por um esforço idêntico ao nível da promoção da utilização ética, responsável e segura.

Por fim, recordo aqui o que escrevi já em 2003, nos primeiros artigos que estão disponíveis do site do Projectos MiudosSegurosNa.Net e onde já aflorava algumas destas questões:

Enquanto não enfrentarmos a questão fazendo dela um verdadeiro imperativo nacional e enquanto não abordarmos a questão de uma forma integrada não vamos a lado nenhum. Podemos fazer uns PowerPoints muito bonitos "para a Europa ver" e nos mandar os "carcanhóis". Podemos fazer uns tantos sites muito bonitos sobre o assunto. Podemos distribuir gratuitamente milhares de brochuras em não sei quantos jornais. Podemos até passar spots publicitários nas rádios e na televisão. Podemos formar uns quantos professores sobre o assunto. Mas tudo não passará de umas quantas flores. E a verdadeira questão continuará por tratar.

A terminar, fica a promessa de para a semana encerrar esta série de artigos, referindo então o papel da tecnologia, no meio de tudo isto.



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