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ARTIGOS DE OPINIÃO - 2007 - OUTUBRO
Falar "Com" e Não "Para" Crianças e Jovens
Por Tito de Morais

Em meados de Setembro estive presente numa escola de Lisboa para uma série de acções de sensibilização sobre a segurança online de crianças e jovens, destinadas a alunos, pais e professores. Daí retirei importantes conclusões que me levam a escrever este artigo, como forma de partilhar essa informação.

As sessões de sensibilização e formação sobre a segurança online de crianças e jovens são uma das formas usadas pelo Projecto MiudosSegurosNa.Net para levar este tema a uma audiência mais vasta. A importância deste tipo de sessões foi sublinhada recentemente pelas sessões em que tive oportunidade de participar numa escola em Lisboa.

Jovens Entre os 12 e os 16 Anos
A primeira sessão teve lugar de manhã, com jovens estudantes e professores do 3º ciclo do ensino básico. Jovens do 7º ao 9º ano de escolaridade, na sua maioria com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, aproximadamente, entraram no auditório da escola, fazendo-se acompanhar dos respectivos professores, à razão de um professor por turma. Totalizavam cerca de 250 participantes, preenchendo praticamente todos os lugares sentados disponíveis no auditório.

Crianças Entre os 10 e os 13 Anos
A segunda sessão teve lugar a seguir ao almoço, também com estudantes e professores do 2º ciclo do ensino básico. Alunos do 5º e 6º anos, na sua maioria com idades compreendidas entre os 10 e os 13 anos, aproximadamente, também acompanhados pelos respectivos professores (um por turma), totalizando mais de 200 participantes, preencheram a quase totalidade dos lugares disponíveis no auditório.

Pais, Encarregados de Educação & Educadores
A terceira e última sessão teve lugar ao final da tarde, entre as 18 e as 20 horas, e destinou-se a pais, encarregados de educação, educadores e professores de alunos da escola, na sua maioria, dos participantes das sessões anteriores. Atendendo a que nesse dia se disputavam os jogos de futebol em que F.C. do Porto e Benfica disputavam as suas primeiras partidas na Liga dos Campeões Europeus, a presença de cerca de uma centena de participantes não deixa de ser significativa. Queremos sempre mais, é certo, mas desta feita, dado que a concorrência era de peso, considero significativo o número de participantes.

O Primeiro Sinal Positivo
O primeiro sinal positivo do impacto destas acções foi o nível de participação da audiência. Sobretudo nas acções destinadas a crianças e jovens. Eram inúmeros os braços no ar para perguntas, opiniões, comentários, etc. À vez e de forma ordeira, todos foram tendo a oportunidade de falar. Pontualmente, para ir avançando na apresentação, tive o cuidado de referir que todos iriam ter oportunidade de falar, mas que tínhamos de ir avançando. E assim foi. De tal forma que, os 90 minutos de cada sessão passaram praticamente sem darmos por eles e com a audiência interessada e participativa, do princípio ao fim. E esta é a primeira lição que este tipo de acção nos fornece. Se falarmos "com" os miúdos e não "para" os miúdos, podemos aprender muito sobre a sua utilização das tecnologias, seus níveis de sensibilização, receios e soluções para a sua segurança online. É preciso é que se lhes dê a oportunidade de se expressarem. E quando o fazemos neste tipo de sessões, todos podemos aprender uns com os outros.

Outros Sinais
O segundo sinal do interesse da audiência foi o facto de no final de cada sessão, invariavelmente os estudantes virem ter comigo para mais algumas perguntas, opiniões ou comentários. Após a sessão para os alunos do 2º ciclo, desloquei-me a um centro comercial das proximidades para "fazer tempo" até à sessão final com pais e encarregados de educação. No regresso à escola, um grupo de estudantes numa paragem de autocarro fez questão de me assinalar a sua presença, chamando-me e cumprimentando-me. Nada demais, mas significativo quando não sou um dos seus "stôres". À noite, ao consultar o email, apercebi-me que as sessões não tinham terminado. De facto, alguns alunos haviam-me deixado comentários no blogue oficial do Projecto MiudosSegurosNa.Net. Um, do Afonso, pedia-me um link para um bloqueador de janelas, um tipo de programas sobre o qual tinha falado nas sessões. Outro, da Madalena, dizia simplesmente ser uma das alunas que tinha assistido "à palestra acerca dos riscos na net e como minimizá-los que teve lugar hoje, dia 18 de Setembro, no auditório do nosso colégio. Queria apenas felicitá-lo pelo óptimo trabalho e agradecer pelas explicações e dúvidas que tirou, bem como a informação desconhecida e útil que nos deu. Achei realmente interessante e mais uma vez gostaria de agradecer." Eu é que agradeço e satisfaz-me verificar que a sessão não terminou ali.

"Ainda Bem Que Fui à Conferência"
Cinco dias depois das sessões, recebi um email com um pedido de ajuda de um pai que tinha estado presente na sessão destinada a pais, encarregados de educação e educadores. Na mensagem era-me solicitada ajuda para "um problema relacionado com a Internet", vivido por um familiar, que se encontrava "desesperada e que nem consegue ir amanhã trabalhar". Prestei por email a ajuda que me foi possível, sugerindo procedimentos que deveriam ser tomados tendo em vista a resolução do problema. Em resposta recebi novo email, agradecendo "a rápida disponibilidade para nos responder e a exaustiva pesquisa! Vamos realmente seguir os seus conselhos. Ainda bem que fui à conferência!". Também a sessão para os adultos não tinha terminado ali, o que me apraz registar e que atesta a importância deste tipo de acções. É que de facto, nunca sabemos quando os problemas de segurança na Internet nos podem bater à porta e importa sabermos o que fazer quando tal acontecer. Nem que seja, recorrer a alguém que nos possa aconselhar e apontar caminhos para a resolução do problema.

Uns dias depois, a minha mulher contou-me um outro episódio relacionado com estas sessões. A sua Directora de Departamento disse-lhe: "já soube que o seu marido esteve há dias na escola da minha filha". A filha tinha estado presente numa das sessões e o assunto tinha sido tema de conversa com a mãe que não tinha tido possibilidade de marcar presença na sessão para os pais. E esta é outra lição importante. Este tipo de sessões, para além de permitirem a sensibilização para a segurança online de crianças e jovens através da aquisição e partilha de informação, são uma excelente oportunidade de que pais, encarregados de educação, professores e educadores podem tirar partido para abordarem o assunto com os seus filhos, educandos e alunos, seja em casa ou na sala de aula. É preciso é que se dê ouvidos aos miúdos. Que se dê oportunidade aos miúdos de se expressarem. Que a conversa o seja de facto. Que não seja uma conversa de sentido único. Que não seja um monólogo. É preciso que se fale "com" e não "para" os miúdos.



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