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ARTIGOS DE OPINIÃO - 2004 - JUNHO
Segurança Internet: Pregar aos Canibais?
Por Tito de Morais
Segundo se conta, Mark Twain costumava contar uma história que se tornou famosa e segundo a qual um missionário pregava aos canibais. Segundo reza a história, os canibais ouviram com muita atenção tudo o que o missionário tinha para lhes dizer... e depois... comeram-no. Uma analogia à promoção da utilização segura da Internet?
Há tempos, em conversa com uma amiga, explicava-lhe que escrevo semanalmente uma coluna e que mantenho um site que procura promover a segurança de crianças e jovens online. Para minha surpresa, respondeu-me que apesar de lá em casa usarem a Internet, ela não se preocupava com esse tipo de coisas. Quando lhe perguntei porquê, respondeu-me que colocava esse tipo de questões "nas mãos de Deus". Surpreendido com a resposta, tentei argumentar, mas passado pouco tempo, achei que o esforço era inglório e a história ficou por ali.
Ganhar a Lotaria Sem Jogar Sequer!
Passadas umas semanas, já eu tinha esquecido a conversa anterior, a minha amiga procurou-me para me pedir a opinião sobre um dado assunto. Primeiro, começou por me mostrar a impressão de uma mensagem de email. A mensagem era em inglês. Olhei para o assunto, ri-me e disse-lhe que esse tipo de mensagens eu nem as lia. Apagava-as imediatamente. O assunto anunciava que os destinatário havia ganho um prémio de lotaria num país qualquer. A minha amiga argumentou, referindo que a empresa em nome da qual era enviada a mensagem existia de facto. Investigara o assunto e descobrira que a empresa era sediada na Nigéria. No entanto, investigações mais aturadas levaram-na a notícias que indiciavam que este tipo de histórias era autênticos contos do vigário e que inclusivamente algumas pessoas que havia sido ludibriadas tinham mesmo desaparecido. Confirmei-lhe que se tratava de uma forma do conto do vigário dos tempos modernos. Contei-lhe algumas histórias de contos do vigário na "vida real", estabelecendo paralelos com contos do vigário online. Foi então que a minha amiga me revelou que estava com um problema. A mensagem fora recebida pela filha de 24 anos. A filha respondera à mensagem e em troca recebera uma outra mensagem a pedir-lhe todo o tipo de dados pessoais e a solicitar o envio de mais de uma centena de contos para ela poder reclamar o prémio. A filha queria enviar o dinheiro e ninguém a conseguia demover da ideia. Falei com a minha amiga, explicando-lhe que deveria ter uma conversa com a filha, no sentido de a sensibilizar para a importância de não revelar dados pessoais "por dá cá aquela palha" e aconselhei-a a desligar a história do facto desta ter ocorrido na Internet e pensar em "termos do mundo real". Afinal, no mundo real, ninguém ganha a lotaria sem comprar pelo menos uma cautela! Se assim era no mundo real, se a filha não comprara nenhum bilhete de lotaria, como poderia ela ser premiada?! Se as pessoas ganhassem a lotaria sem comprar cautelas, onde é que quem oferecia os prémios arranjava o dinheiro para pagar os prémios?! Convencida a minha amiga, a história resolveu-se.
Promoção Nokia (Não é Brincadeira)
Hoje, várias semanas passadas desde o episódio anterior, recebi uma mensagem de correio electrónico da minha amiga com o assunto em epígrafe. O email era dirigido a uma série de amigos comuns. Continha uma série de nomes, moradas completas, números de telefone, números de telemóvel, números de fax e endereços de correio electrónico. Mais abaixo, vinha o texto da mensagem: "A ERICSSON está distribuindo telefones móveis de forma gratuita por Internet. A Nokia também quer propor uma oferta interessante. Querem dar-se a conhecer mas através da Internet e sobretudo de boca em boca e para isso distribuem de forma gratuita o novo telefone WAP. A única coisa que tens de fazer é enviar este email a 8 conhecidos. Em aproximadamente 2 semanas, receberás um NOKIA 6210. Se enviares este email a 20 pessoas, receberás um NOKIA WAP. Não esqueças de enviar cópia a: nome.apelido@nokia.com para que a tua participação fique registada." A mensagem terminava com os contactos de um operador de telemóvel e referências à PT e à ANACOM, Autoridade Nacional de Telecomunicações.
Apeteceu-me bater com a cabeça na secretária várias vezes e foi então que me lembrei da história do missionário que pregava aos canibais. Por vezes, sinto-me como o missionário. As pessoas lêem os meus artigos e escutam-me com muita atenção nas palestras em que participo, mas depois continuam a cometer repetidamente os mesmo erros que as colocam em risco na Internet. Mas como sou daqueles que acredita no velho ditado, "água mole em pedra dura, tanto dá até que fura", aqui fica mais este artigo e amanhã lá vou ter nova conversa com a minha amiga.
 in Info&Net, A Capital, Lisboa, 25 de Junho de 2004
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