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ARTIGOS DE OPINIÃO - 2004 - MARÇO
"Amor Precisa-se": Responsabilidade Social, Também!
Por Tito de Morais
Em Julho e Agosto do ano passado, escrevi sobre a importância de ensinar as crianças e os jovens a avaliar e a interpretar o que descobrem na Internet e sobre a responsabilidade social dos produtores de conteúdos. Acontecimentos verificados e noticiados a semana passada, fazem-me voltar a este assunto.
Há quatro anos atrás, durante um festival de artes em Shangai, na República Popular da China, um artista chinês de nome Zhu Yu, efectuou uma performance a que deu o título "Comendo Pessoas". Fotografias tiradas durante essa performance mostram Zhu Yu sentado a uma mesa de restaurante comendo à mão um pato de churrasco com a cabeça de uma boneca montada no pato. Desde então algumas fotos dessa controversa performance têm feito parte de inúmeras exposições artísticas. Quando as fotos chegaram à Internet, a história mudou de figura.
Bebés de Churrasco a 50 dólares?!
As fotos começaram a circular na Internet através de emails que, ao invés de explicarem a origem das imagens, "explicavam" que em Taiwan os cadáveres de bebés ou fetos podiam ser comprados em hospitais ao preço de 50 a 70 dólares, no sentido de satisfazer a grande procura pelo petisco mais apetecido da ilha: bebés grelhados ou de churrasco! As mensagens prosseguiam lamentando esta triste "realidade" e solicitando às pessoas que a recebessem que as reencaminhassem para tantas pessoas quanto pudessem, no sentido do mundo tomar conhecimento desta "realidade" e alguém fazer alguma coisa para por termo a este "estado de coisas".
Fazer Passar a Ficção Por Realidade
Vem esta história a propósito da polémica provocada, a semana passada, pela distribuição a crianças de várias escolas portuguesas dos folhetos da Associação SOS Vida. Para além das referidas fotos (deliberadamente solicitei o editor no sentido de não as publicar) acompanhadas da "explicação" acima referida, os folhetos incluiam ainda textos com descrições pormenorizadas e igualmente chocantes de abortos, o que contribuiu para o choque, revolta e reprovação geral da acção, por parte de técnicos de saúde, associações contra despenalização do aborto, de pais, de planeamento familiar, dos direitos dos cidadãos, partidos políticos, e até para o distanciamento da hierarquia da Igreja. A nível político, foram pedidos esclarecimentos aos Governo, foi exigida a presença de membros do Governo no Parlamento e o Ministério da Educação promoveu uma investigação sobre como foi possível verificar-se esta situação.
Científico?!
Eventualmente, passaria ao lado desta situação. No entanto, o espanto com que vi o promotor da iniciativa, um padre, já de cabelos brancos, afirmar na televisão que não considerava as imagens chocantes, acrescentando que tudo se pode dizer desde que seja científico, alegando que as imagens estão disponíveis em livros e na Internet e que a televisão nos presenteia com violência todos os dias, fizeram-me saltar da cadeira. É que como fica demonstrado, no início deste artigo, as imagens, de científico, nada tinham.
"Não Acredites em Tudo o Que Lês"
Este era o título de um dos artigos que escrevi e a que faço referência no início deste texto. Na altura escrevi-o usando a frase como algo que os pais devem dizer aos filhos. Na realidade é algo que devemos repetir a nós próprios. Sobretudo quando lemos emails que nos contam uma história inacreditável e nos solicitam no sentido de a passarmos a todas as pessoas que conhecemos. O sentido crítico é uma capacidade essencial para se desenvolver, não só nas crianças, mas nos adultos também, como tristemente ilustra este episódio. Antes de reencaminhar o próximo email que o solicitar nesse sentido... pense. E ensine os seus filhos e educandos a fazer o mesmo. E o mesmo se aplica aquilo que lemos na Internet e fora dela!
"Kids Don't Try This at Home!"
Este era o título do outro artigo que escrevi e a que faço referência no início deste texto. Na altura escrevi: "Os produtores de conteúdos têm uma responsabilidade social, devendo certificar-se que os conteúdos que publicam são adequados ao seu público alvo". Juntando as duas ideias expressas nestes artigos, sublinho que quem trabalha com crianças tem responsabilidades redobradas a este nível. Quem proceder de outro modo, por muito bem intencionado que esteja, está a prestar um mau serviço às crianças e aos jovens portugueses.
A terminar, para tudo quanto se relacione com o domínio de lendas urbanas como a que está na origem deste triste episódio, recomendo vivamente uma visita ao principal site de referência no género: o Snopes. O artigo que faz a desmontagem exaustiva e educativa desta história pode ser consultado em http://www.snopes.com/horrors/cannibal/fetus.htm.
 in Info&Net, A Capital, Lisboa, 12 de Março de 2004
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