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ARTIGOS DE OPINIÃO - 2003 - DEZEMBRO
"Não Ligues o 'Complicador'!"
Por Tito de Morais

Quem partilha um computador com crianças ou jovens, sabe bem as verdadeiras surpresas e dores de cabeça que tal acarreta. De um momento para o outro, quando menos se espera e quando tal é menos conveniente, um computador transforma-se radicalmente. Para só voltar a ser reconhecido depois de formatado pela enésima vez.

Quando a NASA iniciou o seu programa de naves tripuladas, um dos problemas com que se defrontou prendia-se com o facto das canetas dos astronautas não funcionarem na ausência da gravidade. Para resolver este problema, a agência espacial norte-americana contratou uma famosa empresa de consultoria. Segundo se conta, dois anos e 12 milhõões de dólares depois, o problema estava resolvido. Para isso, a NASA desenvolveu uma caneta que não só escrevia na ausência da gravidade, mas que também o fazia com a ponta para cima, debaixo de água, em praticamente qualquer superfície – incluindo cristal – e em temperaturas que variavam entre negativas e os 300º centígrados. Os russos, confrontados com o mesmo problema, optaram pelo lápis!

Mas a que propósito vem esta história que circula por email na Internet, perguntarão. Esta história ilustra a diferença entre uma abordagem que se foca na solução e outra que se foca no problema. Vem isto a propósito da história que vos vou contar de seguida.

Esta semana, em conversa com um amigo, este contava-me uma história que julgo reflectir a experiência de muitos pais que partilham o computador em casa com os seus filhos (crianças e jovens). Contava-me esse amigo porque estava sem Internet em casa e porque razão não estava com muita vontade de a voltar a ter tão cedo. A "febre" da instalação de programas havia-se apoderado dos seus filhos. O desktop do seu computador havia-se tornado irreconhecível. Com um ar entre o desânimo e o desespero, contava-me que programas que antes funcionavam haviam deixado de funcionar. De cada vez que usava o computador as mensagens de erro sucediam-se. Já estava cansado de ler que "o não sei o quê" havia feito uma operação ilegal e que ia ser encerrado. Isto para já não falar nos abomináveis écrans azuis. Ou então o computador pura e simplesmente congelava. Ficava a ideia de que os filhos haviam instalado a colecção de CD’s que vinham com as revistas de informática e pacotes de cereais, que haviam acumulado ao longo dos últimos anos. Mas pior de tudo, eram os resultados. Sem o meu amigo "saber ler nem escrever", instalou-se uma aplicação que periódica e automaticamente ligava o computador à Internet. E no fim do mês, a conta do telefone foi fogo!

Contrariamente ao que acontecia há uns anos atrás, hoje em dia a tecnologia permite-nos evitar estas dores de cabeça. Os sistemas operativos permitem a criação de perfis por utilizador, permitem ainda a criação de perfis de administração que impedem o arrojo dos mais pequenos (tais como a instalação e desinstalação de programas), permitindo ainda que a máquina ao ser encerrada, assuma os parâmetros inicialmente definidos. Por outro lado, algumas aplicações mais especializadas permitem impedir o acesso a determinados programas. Isto para não falar em firewalls, anti-vírus, anti-spyware e outras aplicações.

Existem formas de, através da tecnologia, evitar que os seus filhos "virem o seu computador do avesso". Como referi, este tipo de veleidades pode traduzir-se em prejuízos de todo o tipo. Acho que só quem nunca partilhou um computador com uma criança ou um adolescente, não sabe do que estou a falar. Este tipo de soluções evitam outras mais drásticas, como por exemplo, ter de formatar novamente o disco rígido do seu computador para este se tornar de novo utilizável. No entanto, apesar de se tratarem de soluções simples, nem todo nós dispomos dos conhecimentos para realizar estas tarefas sem auxílio externo. E é esta última frase que me leva ao título do artigo de hoje.

Juntamente com alguns amigos partilho uma "private joke" cuja origem já não me recordo. Mas ficou. Invariavelmente, a frase surge quando um de nós tem uma ideia e a partilha com os restantes. Normalmente trata-se de uma ideia que de alguma forma nos facilita a vida, dá solução a um problema, resolvendo-o ou atenuando-o. Normalmente a ideia é um compromisso entre o ÓPTIMO e o BOM, podendo ser uma solução total ou parcial para o problema. No entanto, a maior parte das vezes, é algo que pode ser implementado de imediato, a um custo reduzido e sem necessidade de recursos externos. É então que um de nós, iluminado e entusiasmado com a ideia, lhe acrescenta uma série de outras ideias, arriscando na prática a sua inviabilização. Perante o cenário de se fazer algo rapidamente e sem grandes custos ou arriscar algo mais complexo num futuro incerto e eventualmente pouco viável, um de nós lá deixa cair a frase: "Não ligues o complicador!" O mesmo se aplica a quem partilhe um computador com crianças ou jovens. Não ligue o "complicador". Se não sabe como implementar uma das soluções tecnológicas que referi acima, ou se não tem a quem recorrer para o fazer, não deixe o problema por resolver. Não o resolva proibindo o acesso dos seus filhos ou educandos. Estabeleça regras para a utilização do computador. E quem violar as regras terá de se sujeitar às consequências. Ao fim e ao cabo, não é assim que procedemos para quase tudo o resto?! A bem da sua sanidade mental, faço-o também com o computador. Se não, pensem como actuariam como pais, se um dia ao chegarem a casa vissem que a mesa da sala tinha sido pintada de azul, as paredes de cor de rosa, o guarda fatos na sala, a cama na cozinha e o fogão no quarto de banho? Resumindo: foque-se no problema e não na solução.

in Info&Net, A Capital, Lisboa, 07 de Dezembro de 2003



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