![]() |
|
Por Tito de Morais Proibindo o acesso às novas tecnologias de informação e comunicação sobre o pretexto de garantir a segurança dos seus filhos e educandos, alguns pais e educadores estão apenas a contribuir para a falta de competitividade futura dos seus filhos e educandos, limitando a sua educação, formação e desenvolvimento. A semana passada, conversava sobre a Internet com um pai que ocupa um cargo directivo numa Associação da Pais de uma escola do ensino básico da Grande Lisboa e este explicava-me porque não tinha endereço de correio electrónico. Subitamente fui surpreendido por uma afirmação do tipo "eu retirei a Internet lá de casa porque acho que a Internet é mais prejudicial do que benéfica para as crianças",. Curiosamente, esta já não é a primeira vez que sou surpreendido por afirmações deste tipo, em que pais e encarregados de educação optam por impedir o acesso dos filhos às novas tecnologias de informação e comunicação julgando estarem assim a salvaguardá-los dos riscos inerentes à sua utilização. Há tempos uma colega de um familiar meu contava-lhe que não dispunha de ligação à Internet em casa devido ao facto de um familiar seu ter sido vítima de uma fraude através da Internet, e que esse caso se havia transformado num caso de polícia bastante desagradável. Outra situação menos restritiva com que sou confrontado amiúde é a de pais e educadores que impedem apenas o acesso a determinados serviços online tais como o Instant Messaging (MSN Messenger, ICQ, etc.), as salas de conversação (chat rooms) ou o IRC (Internet Relay Chat). Para espanto meu, há quem acredite que resolve o problema da segurança de crianças e jovens online, proibindo o acesso às novas tecnologias de informação e comunicação ou a alguns dos seus serviços. Mas será que nunca ouviram o velho adágio "o fruto proibido é o mais apetecido"?! Como demonstrei num dos artigos anteriores, a Internet e as novas tecnologias de informação e comunicação estão cá para ficar. Estão cada vez mais acessíveis. E não apenas em casa e no computador. Já chegaram inclusivamente aos frigoríficos! Já chegaram a crianças e jovens em idades cada vez mais precoces. Estão inclusivamente integradas nos currículos escolares. Por tudo isto, nos dias de hoje, atitudes como as que referi não garantem a segurança de crianças e jovens, antes os impedem de aproveitar o manancial de recursos ao nível da informação e comunicação que são cruciais para a sua educação, formação e desenvolvimento. É assim que, ao proibir o acesso às novas tecnologias de informação e comunicação, sobre o pretexto de garantir a segurança dos seus filhos, estes educadores apenas estão a criar uma situação em que os seus educandos ficam em desvantagem relativamente a outras crianças e jovens ao nível da sua educação, formação e desenvolvimento. Numa altura em que tanto se fala de competitividade, estão apenas a contribuir para a futura falta de competitividade dos seus filhos e educandos. Outro tipo de atitude da parte de pais e educadores com que me confronto é o pensamento de que tudo se resolve através da tecnologia. Quando lhes pergunto como garantem a protecção de crianças e jovens online, obtenho resposta do tipo "eu durmo descansado por que tenho uma firewall", "um anti-vírus" ou, mais raramente, "um software de detecção de intrusões", "um sistema de filtragem de conteúdos" ou "um sistema de monitorização". Infelizmente, esquecem-se que não existem sistemas de segurança 100% seguros. Se algumas destas tecnologias são componentes importantes de um qualquer sistema de protecção online – seja de crianças, jovens ou adultos – a realidade é que, por si só, não são uma garantia de segurança. Tal explica-se facilmente por alguns dos resultados dos do 2002 CSI/FBI Computer Crime & Security Survey, onde apesar de 89% dos inquiridos disporem de uma firewall e 60% disporem de sistemas de detecção de intrusões, 40% reportaram que os seus sistemas haviam sido penetrados a partir do exterior. Acresce que apesar de 90% dos inquiridos disporem de software anti-vírus, 85% foram vítimas de vírus, worms, etc. De igual modo o software de filtragem de conteúdos e de monitorização do acesso pode ajudar, mas também não é 100% eficaz. Não só por não conseguir filtrar todo o tipo de conteúdos indesejáveis, como por vezes bloquear conteúdos inofensivos, perfeitamente legítimos e por vezes até altamente instrutivos. Por outro lado, podem ser facilmente detectados e/ou ultrapassados. Existem inclusivamente websites que explicam aos jovens como "enganar" este tipo de software, isto para não falar nas preocupações ao nível da privacidade e liberdade de expressão que podem colocar. De facto, algumas destas tecnologias podem ser fortemente intrusivas relativamente à privacidade de uma criança, podendo mesmo constituir um problema no caso de adolescentes. Nestes casos, em vez de resolverem um problema fornecendo uma solução, podem inclusivamente tornar-se parte do problema ou criarem um problema adicional. Por fim, outro tipo de situações com que me confronto, por ventura mais frequentes, é o caso de pais e educadores ignorarem os riscos inerentes à utilização das novas tecnologias de informação e comunicação, concedendo acesso ilimitado e não supervisionado aos seus filhos, sem trabalharem com eles ao nível da prevenção, da sensibilização e da educação para uma utilização responsável e em segurança das mesmas. Então, perguntarão, como garantir que crianças e jovens tirem o máximo partido das novas tecnologias de informação e comunicação sem contudo se exporem aos perigos, aos riscos e às ameaças com que estas os podem confrontar? A boa notícia é que existe uma solução para este dilema. De facto, se a tecnologia pode – e deve - ser parte integrante de uma solução de segurança online, é bom ter presente que não substitui outros instrumentos tais como a sensibilização, a educação e o envolvimento e supervisão parental. Hoje, as famílias, as escolas e os produtores de conteúdos podem e devem desenvolver esforços conjuntos e usarem essas mesmas tecnologias para descobrirem, educarem e desenvolverem o melhor software que as crianças e os jovens dispõem para se protegerem contra estes perigos, riscos e ameaças: aquilo a que Hercule Poirot chamava, "as suas pequenas células cinzentas"! in Info&Net, A Capital, Lisboa, 14 de Novembro de 2003
|
| | Início | Recursos | Sobre | Mapa do Site | | ||||