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Por Tito de Morais Portugal não tem uma cultura de segurança. São inúmeros os sectores onde essa realidade pode ser constatada e a segurança informática não é excepção. Se Governo, ISP’s e Associações Profissionais e Sectoriais nada fazem, a quem compete promover a utilização responsável e em segurança das novas tecnologias de informação e comunicação? Portugal não tem uma cultura de segurança. Contrariamente ao que acontece noutros países desenvolvidos onde os simulacros de incêndio são actividades mais ou menos regulares em condomínios, escolas e edifícios públicos, como a esmagadora maioria dos portugueses, não me lembro de ter feito um único exercício deste tipo em toda a minha vida. E já lá vão quarenta e pouco anos. Tenho três filhos - um com 22 anos, outro de 12 e outro de 6 - que vão pelo mesmo caminho. Periodicamente, as páginas dos jornais, os telejornais e os serviços noticiosos confrontam-nos com tragédias relacionados com acidentes de trabalho. Aqueles que maior cobertura noticiosa obtêm são, por ventura, os que se relacionam com as obras públicas. A única área onde tenho conhecimento de alguns esforços em termos de sensibilização e educação é no domínio da prevenção e da segurança rodoviária. E mesmo aí, tal não impede que Portugal tenha taxas de sinistralidade rodoviária que a todos devem envergonhar. E esta realidade é trágica. Por ventura, o exemplo mais trágico desta realidade terá sido a morte de meia centena de pessoas na tragédia de Castelo de Paiva. Foi preciso morrerem mais de cinquenta pessoas para se construir uma nova ponte. A constatação desta triste realidade chega ao ponto de se verificar que devemos ser dos poucos povos que traduz essa tradicional falta de cultura de segurança num adágio popular: "casa roubada, trancas à porta". De facto, perante esta realidade, é de admirar que a língua portuguesa contenha o verbo "prevenir". É que normalmente pensamos que as coisas más só acontecem aos outros. A informática também não escapa a este tradicional modo de estar dos portugueses. A nível governamental e com o incentivo da União Europeia, tem-se assistido a um esforço no sentido da massificação dos acessos à Internet em banda larga. A este respeito já aqui referi a semana passada o Projecto do Campus Virtuais. Com notória satisfação por estes esforços governamentais, os operadores de serviços Internet têm-se esforçado por tirar partido destas iniciativas, aderindo a elas e contribuindo também à sua maneira para a massificação da banda larga em Portugal. Mas ao nível da prevenção, à excepção dos esforços da ASSOFT contra a pirataria informática, não se assiste a nenhuma iniciativa no sentido de promover a utilização responsável e em segurança das novas tecnologias de informação e comunicação. Nada se tem visto no sentido de prevenir o crime informático ou crime apoiado em recursos informáticos. Nem da parte do Governo. Nem da parte dos ISPs. Nem da parte das Associações Profissionais e Sectoriais. Se a indiferença política face a esta problemática não é de todo de estranhar, já o mesmo não se pode dizer relativamente aos operadores do mercado. De facto, os operadores de serviços Internet, sobretudo os de banda larga, também não me parecem grandemente preocupados em educar os seus utilizadores acerca dos problemas de segurança colocados pelas tecnologias de banda larga. É, assim, lamentável que a grande maioria dos operadores de serviços Internet não forneçam aos seus clientes os meios de controlarem a sua porta de acesso à Internet. Não lhes forneçam os meios que lhes permitam bloquear intrusos, vírus e conteúdos maléficos. Isto apesar de tal ser, no meu ponto de vista, crucial para o seu sucesso a longo prazo. Perante a indiferença dos principais operadores do mercado, então a quem compete promover a utilização responsável e em segurança das novas tecnologias de informação e comunicação? No meu ponto de vista, a iniciativa cabe à sociedade civil. Urge, então, a criação de uma associação cuja missão primordial seja a promoção da utilização responsável e em segurança das novas tecnologias de informação e comunicação junto das Escolas, dos organismos do Estado, das Empresas e da comunidade em geral. in Info&Net, A Capital, Lisboa, 28 de Março de 2003
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